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A Última Termal um conto de: Rodrigo Stulzer - 2002
Já se passaram 300 anos desde que as últimas naves deixaram a Terra. A
expansão do Sol chegou a um ponto insuportável e somente os menos
afortunados e piratas de apartamentos permaneciam. Este planeta que
tanto nos ajudou entrou em seu período de decadência a partir do século
XX. Seu triste fim já era conhecido desde muito tempo. A terrível
transformação do Sol em uma anã branca finalmente estava diante de
nossos olhos.
O povo que ficou falava aterrorizado dos redemoinhos gigantes de pó que
subiam as céus a perder de vista. Existiam até histórias de crianças
que foram tragadas para esses monstros de ar e pó ao brincar com
pára-quedas caseiros feitos de plástico e fios.
E o que eu vim fazer aqui nesta Terra desolada e castigada por altas
temperaturas e ventos praticamente inexistentes? Cento e vinte
afortunados, dos quais eu e mais uma dezena de amigos do que era o
antigo Brasil tivemos a oportunidade de fazer parte do último campeonato
de vôo-livre da Terra.
Todos os meus equipamentos estavam guardados na minha pequena
valise. Finalmente o pessoal da Novatech conseguiu desenvolver um
equipamento completo que não pesava mais que dois quilos. Eu já estava
farto de ter que carregar duas mochilas, sendo uma só para guardar minha
roupa
de vôo. De parecido com o pré-histórico parapente, desenvolvido nos anos
90, não restou nem o nome. A Asa Delta já era coisa do passado a muitos
séculos. A mais de 200 anos os dois esportes tinham se fundido quando foi
foi inventado a roupa de vôo.
A roupa nada mais era que um macacão que envolvia totalmente o corpo do
piloto, com asas de comprimento variável que podiam ser estendidas ou
recolhidas a partir dos braços através de controle braço-motor. Como o
material da roupa era muito leve e extremamente maleável, as
possibilidades aerodinâmicas eram praticamente ilimitadas.
O controle braço-motor é efetuado basicamente como uma extensão do
próprio braço do piloto. Ao estender os braços as "asas" acompanham os
movimentos executados e finalmente consegue-se as tão almejadas asas com
área variável.
O aspecto geral da roupa ao vê-la voando é muito parecido com um
"corvus-aquilinus" ou mais conhecido como urubu, extinto a milhares de
anos. Estas aves povoaram o imaginário dos praticantes do vôo-livre do
século 20 por sua total desenvolvura nos ares. Era raro ver um urubu
batendo as asas. Se isso acontecesse pode apostar que o dia de vôo
seria ruim. No traje até as pontas das asas foram inspiradas nas dos
urubus.
Não era mais permitido qualquer tipo de equipamento eletrônico no
vôo-livre. Também, com estes trajes de vôo fazendo um L/D de 80/1, quem
precisava de variômetros? Mesmo os famosos óculos térmicos, tão
populares a partir do ano de 2005, tinham sido abolidos de competições
oficiais a mais de 300 anos. Estes óculos eram usados somente para
alunos em instrução para familiarizá-los com o vôo térmico e as formações.
Mas o grande salto tecnológico não se deu somente nas roupas de vôo...
A engenharia genética evoluiu muito e finalmente chegou aos esportes
aéreos. Depois que o gene do urubu foi todo mapeado, ficou fácil
descobrir o que o fazia tão poderoso nos céus. Anos de estudo levantaram
alguns dos dons do urubu. Ouvido altamente apurado para baixas
freqüências: as térmicas podiam ser ouvidas. Alta sensibilidade para
variações de pressão: variômetro interno. Visão infra-vermelho: através
de pequenas variações de temperaturas as térmicas podiam ser vistas. A
máquina perfeita de voar estava desvendada.
Foi no campeonato mundial de 2040 que surgiram os primeiros experimentos
envolvendo pilotos de alto nível com material genético
alterado de urubus. As competições tiveram um salto enorme. Esses pilotos
que se submeteram a alterações genéticas não perdiam mais! A diferença
para o segundo colocado chegou a mais de 40 minutos na primeira competição.
Em vez de gerar altos protestos, um a um os pilotos começaram a se
submeter ao tratamento genético. Não tanto por querer ganhar as novas
competições, mas pelas maravilhas que os "convertidos" falavam. As
térmicas eram sempre alcançadas, as tiradas sempre eram maiores. Muitos
falavam que tinham redescoberto o prazer de voar; na verdade todos
falavam que aquilo sim era voar.
Foi nesta época que os equipamentos eletrônicos foram banidos das
competições. Não havia mais razão para usar óculos térmicos, variômetros
ou GPS. Por que usar toda esta parafernália tecnológica se agora eles
podiam sentir as térmicas, praticamente "ver" as correntes de ar e saber
qual era o melhor lugar para se dirigir para pegar a melhor ascendência?
Mas toda essa evolução genética tinha um preço a se pagar. Algumas
pessoas começaram a desenvolver uma pequena plumagem pelo corpo. Algo
lembrando micro-penas. Outros começaram a ter predileção por carnes
quase em estado de putrefação.
Já fazem 2 anos que me submeti ao tratamento. No início não senti
nada. Pensei que algo tinha dado errado e até comecei a duvidar de meus
outros amigos do vôo e das maravilhas que eles falavam. Passaram-se 3
semanas e num dia que não prometia vôo comecei a sentir um coisa
estranha. Ao decolar comecei a voar para a frente por uns 5 segundos
para ver se achava algum local de sustentação. Não encontrei
nada. Quando iria começar a fazer a curva para voltar para a encosta
senti uma mudança no ar. Ele parecia ter ficado um pouco mais quente e a
cada metro que eu avançava para frente mais ele esquentava. Meu
variômetro não marcava nada, mas eu sabia que alguma coisa estava
acontecendo ali na frente.
Dez segundos depois senti a pressão do ar me levando para cima e o vário
começando a apitar. Era como se tivesse sido minha primeira termal. Eu
sabia que ela estava ali na frente. Como eu sabia? Não sei, mas eu tinha
certeza que ela estava por lá. Algumas horas depois do vôo lembrei de
ter sentido um aumento de temperatura, será que eu tinha sido
"convertido" finalmente?
As semanas foram passando e as mudanças começaram a ficar muito mais
visíveis. Mesmo não voando eu sabia onde as térmicas estavam sendo
geradas e para onde elas se deslocavam. Isso até me irritava, pois eu
estava dentro da cidade e tinha absoluta certeza que se estivesse com
minha roupa de vôo chegaria ao meu destino muito mais rapidamente que de
carro ou a pé.
No final de semana começava a minha glória. Eu não era mais um simples
mortal. Tinha me tornado finalmente um ser do céus. Eu ainda não era um
pássaro, mas já me considerava como um. As 10 horas da manhã eu já podia
me lançar aos céus e ficar voando por horas a fio. Mesmo que a condição
piorasse eu tinha plena consciência disso e voltava a pousar na rampa
antes que tivesse que obrigatoriamente ir para o pouso.
Bem, chega de lembranças. A janela acabou de abrir e vou decolar...
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