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Batman em Quixadá - Parte 4
Por: Tenório
NORTHWINDPRO - seu caminho para os 238
Curvei à esquerda, em direção aos açudes. Parti decidido a mergulhar, se
não tivesse nada.
Peguei um piriri. 40m de altura, no máximo. Era
muito fraca e derivava rápido. Não era constante. No terceiro giro estava à
beira de uma área onde só haviam juremas.
Jurema - árvore aparentemente
seca, predominante da caatinga, repleta de espinhos.
No giro seguinte,
não tinha mais condições de voltar caso a termal me largasse, e, da altura em
que estava, nem conseguia ver o término das mesmas. Minha esperança era ser
conduzido à térmica-mãe. Comecei a ficar sem-vergonha e não dar mais atenção
a fechadas menores que 30%.
Depois de muita paciência, subi. Pela
primeira vez no vôo consegui respirar aliviado. Estava a uns 1500m. A
rota, muito à direita, e o vento empurrando mais para a esquerda. Em
frente e à direita haviam grandes buracos azuis e nuvens falhadas. À esquerda
estava um pouco mais bonito, mas ainda longe de ser uma
condição clássica.
Parti para a esquerda.
Os pilotos foram
orientados, no briefing, a passar sempre sua posição para a equipe de
resgate, informando o número do piloto, sua distância para a próxima cidade,
e sua altura. Devíamos permanecer em silêncio no restante do tempo para não
atrapalhar a transmissão dos demais.
A próxima cidade era Madalena, cerca
de 65Km da rampa. Apesar de estar alto, esticava o pescoço tentando
avistá-la. Tudo bem, meu GPS dizia que ela estava lá...
Medi minha
altura pelo olho e mandei: "Piloto 16 no través de Madalena a 2000, 25Km à
esquerda da rota."
Passava sobre longas áreas desertas. Uma, com formato de vulcão,
tinha seu interior verde, redondo, significando a presença de água, charco.
Devia ter pelo menos 15Km de diâmetro. Se pousasse ali, as histórias do Cecéu
seriam brincadeira de criança.
Já estava com mais de 100Km, e pensava
onde estariam as famosas cloud-streets de 70Km que o Fleury tanto descrevia.
Não havia de 70, 35, 10, nem de 7Km. No vôo inteiro não tinha pegado nem uma
nuvenzinha ao lado da outra, sequer. Preferi acreditar que se tratava da
minha falta de capacidade para escolher o melhor caminho, e
prosseguir.
Mais à frente, ouvi o Ceará tentando falar com o
resgate. Lembrei-me do vôo de segunda, quando havia feito uma "ponte" para o
mesmo: "Fala Ceará, onde você está?" "Avisa lá que eu tô em
Buaçú" "Onde?" "Buaçú!!!" Cheguei a ficar olhando para baixo,
procurando alguma aldeia indígena. Chegava a ver o Cearense com um cocar na
cabeça e uma indiazinha em seu colo. Caí na real. Não estava mais
sobrevoando a amazônia, como em meus tempos de "garoto", e sim no sertão
Nordestino.
Estava eu sobrevoando uma região montanhosa,
inacreditavelmente maior que a de trás da rampa. Logo depois de Monsenhor
Tabosa, do lado esquerdo. Pico máximo 3708ft, +-1200m. Tive que passar
pelo meio. Era o único lugar com nuvem. Acho que nem bode vivia ali. Não
havia trilhas. Mais uma vez peguei apenas piriris e
deixava derivar.
Desta vez o Ceará estava em Nova Russas, ou em
Monsenhor Tabosa, não me lembro. Sabia que estava bem. Estava em uma
cidade "grande" da rota. Fiz a ponte.
À esquerda de Nova Russas, o
planeta Terra queimava. Pela primeira vez, fazia um tiradão de mais de 20Km
acelerado, confiante, sem medo de não pegar.
Não sei de quanto era,
pois meu vario estava quebrado, mas dava para sentir o solo descer
rapidamente, enquanto minha vela ficava "paradinha". Apenas sanfonava muito.
Nada mais justo, uma vez que estava no sertão. Me senti como um repentista.
T.
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