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Batman em Quixadá - Parte 3
Por: Tenório
NORTHWINDPRO - seu caminho para os 238
Quarta-feira.
O dia estava fechado. A rampa entubada.
Estranho.
Chegamos à rampa. Tive a impressão de o vento estar semelhante
ao dia anterior. As nuvens se desfaziam rapidamente.
Como de costume,
me assentei escorado à vela.
O "Dio" olhou para mim e disse: "A imagem
que levo daqui é você sentado o dia inteiro nessa rampa". Achei engraçado
e respondi:"Pode procurar outra imagem mental, pois vou decolar daqui a pouco
e fazer 200Km".
Logo que o pessoal começou a decolar, me equipei. Ao
mesmo tempo que estava traumatizado com a imagem do F. decolando de ré,
e indo para o rotor, na segunda-feira, estava tranquilo.
Todos que
foram para o rotor decolaram sem autorização do torre de controle. Mereciam
um rádio ITA. Deixo para o grande Mestre PPI explicar, se houver alguém
interessado.
... "Tá pronto Tenório?". "Tô. Soltem a
vela". "Puxa cara, vai". Levei um tombaço animal na rampa. Quebrei o
vário. Pensei "tudo bem, só preciso do GPS para comprovar o vôo. Está
funcionando".
Nova tentativa. Puxei a vela com muita força, comandei um
front sem querer, e caí de costas, com a cabeça para baixo, na
rampa. 10Kgf de lastro na parte de baixo da selete. Duas garrafas de 1,5l de
água mineral atrás. Fiquei imobilizado. Vivendo e aprendendo. Já sabia como
se sentem as tartarugas viradas. O primeiro garoto não conseguiu me
levantar. Precisei de um segundo. O Caio quebrou o meu galho e filmou. Está
disponível para apreciação de todos...
Olhei para o Washington para ver
se ele queria decolar na minha frente. Ele estava com a rosa feita,
posicionada nas costas. Apesar de estar de capacete, era possível ver seu
semblante sereno, como um Lord Inglês.
"Vai Tenório, puxa cara, puxa". Puxei a vela com muita delicadeza. Dei dois
passos para cima, girei e caí, sendo arrastado morro acima. A vela estava
voando. Naquela fração de segundo, ouvi seu barulho chacoalhando devido às
rajadas. Tomei uma fechadinha de 30%, ao mesmo tempo que tive a impressão de
estar andando para trás. Ainda não estava sentado direito, mas os Anjos da
Guarda já haviam colocado o acelerador em meus pés. Acelerei quase tudo,
sem exitar. Saí andando em frente.
Fiquei em um piriri turbulento, no
lado esquerdo, em frente à rampa. Não gostei. Fui para a direita.
Nada. O vento não estava alinhado, vinha de esquerda em relação à
decolagem. Olho para a esquerda e vejo o Washington engatado, exatamente onde
eu estava. Corri para baixo dele mas, com o vento contra,
demorei. Peguei. Lembrei-me das palavras do Landim "Você saiu muito baixo.
Aconselhamos todos a sair no mínimo a 1500m".
Atrás da rampa existe
uma roubada inacreditável. Perigosa. Uma sequência de morros muito altos. O
aconselhável é contornar pela direita (no sentido do vôo), indo para a
"galinha" e pegando o sentido do resgate.
Tentei subir na vertical, mas
estava muito pequena e derivava muito. Com cerca de 200m, a térmica já estava
para trás da pampa, e o Washington, 500m acima de mim, já partia para a
"galinha", com sua super máquina.
Mantive-me na témica, derivando em
direção aos morros. Com 500m ficou falhada. Acabou. Já estava à beira dos
morros, se optasse por voltar, provavelmente desceria na vertical. Na galinha
não chegava mais. Optei por colocar no caudal. Havia nuvens na
proa.
Fiquei enroscando em piriris e deixando derivar sobre o Marlboro.
Apesar de achar que havia boas térmicas à frente, não quis arriscar. Preferi
me manter vivo. Fiquei quase que o tempo todo tomando fechadinhas de
20-30%. Apesar disso, permanecia tranquilo.
Finalmente estava alto,
1000m talvez, e estava na outra borda das montanhas. Coloquei no
caudal.
20Km à frente, pregando, contemplava a velocidade da sombra de
minha vela no terreno. Vencia rapidamente todos os obstáculos. Chequei o GPS,
63Km/h. Era uma sombra grande. Por vezes parecia maior que a própria vela.
Noutras parecia que ia ficar acima de mim... Não sei porque, mas comecei a
achar que estava ficando "um pouco baixo".
Havia apenas uma casa à minha
frente. A estrada do resgate, quilômetros à direita. À esquerda, dois
açudes. "Estaria minha felicidade mergulhada no fundo daquelas águas
represadas?", pensei.
T.
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