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SEIS ESTÁGIOS ATÉ O PARAÍSO
Voar não é um esporte.
Não é nem mesmo uma prática esportiva.
Voar é vida.
Isto define o que você é, como pensa, como escolhe os amigos. Dependendo do grau de sua paixão, o vôo
também define com que rapidez você descarta os amigos não voadores. Quando qualquer paixão governa sua
vida, é natural que você não apenas pense nela incessantemente, mas filosofe a respeito da mesma. Tenta
decidir a respeito do assunto na cara ou coroa. E, cedo ou tarde começa a reconhecer os estágios de seu vício.
Há o estágio inicial de experimentação: a excitação de seus pés deixando o chão pela primeira vez, segurando
sua respiração conforme a terra parece desaparecer violentamente de seus pés. Então vem a consciência de
que sua vida está presa apenas por algumas tiras presas às suas pernas. Mas, ao mesmo tempo em que você
experimenta esta sensação de que a vida é frágil, vem a consciência da vida em sua essência, a excitação
de estar simplesmente vivo, simplesmente experimentando a vida em sua plenitude.
Isto é voar.
Nos primeiros meses, você vive para aliviar aquele primeiro momento em que a terra se abriu abaixo de seus
pés e proporcionou um novo mundo tridimensional de liberdade. Decolagem após decolagem é preciso para saciar
esta cede. Felizmente, a maioria das velas para iniciantes permite que você se satisfaça! Então, aos poucos,
e talvez de uma maneira triste, você se acostuma com a sensação de voar com suas próprias asas. E, por
levantar seus olhos acima de seus pés pela primeira vez, começa a perceber uma nova perspectiva de vida.
Nos chamem de arrogantes, que desdenhamos, mas quando entramos neste estágio, certamente encaramos a vida
em sua forma normal. Este segundo estágio então, é de uma consciência maior, que aumenta a cada metro que
voamos mais alto, mudando nossa perspectiva de normalidade para sempre, deixando-a nas fronteiras da terra.
Tenha cuidado a partir deste ponto, pois você está preso a cordas como uma marionete em sua nova vida,
sempre buscando voar mais e mais. Para sempre. Ou até você fazer uma decisão consciente em se abster
até que essa droga saia de seu corpo através de absoluta abstinência.
A vontade de voar gera em você novos desafios que o mantêm constantemente preso a esta armadilha. Depois
da felicidade de sua primeira hora voando, vem o terceiro estágio. Este é uma extensão do anterior, mas o
ego e a competição saudável entra em cena, deixando você com o desejo de estar lá em cima mais tempo,
vendo seus amigos pregando, e então tentar ficar voando uma hora em condições fracas, onde apenas sua
obstinação o mantêm no ar. Então, um dia, tudo da certo e você sobe a uma altura que jamais pensou ser
possível. O relevo se torna verdadeiramente plano, as montanhas meras linhas, o ar seco e frio, e o azul
se estende conforme se curva em torno da terra. Porque a partir desse ponto, você tem o poder de voar
para qualquer lugar que deseje. Tempo de vôo agora não significa nada. Até mesmo torna-se insignificante,
conforme você cruza horizontes atrás de horizontes.
Este, o quarto estágio de vôo, é provavelmente o mais intenso, e é responsável pelos mais de 300 km de
distância voados em correntes de ar que se aceleram com rapidez. Lugares planos e áridos se tornam paraísos.
Dust Devils se tornam perigosos. Nuvens assustadoras mostram o caminho da próxima subida sem controle.
E lá no alto, ventos suicidas agora, que se equiparados a velocidade do vento no solo são capaz de nos
levar ao delírio só de imaginar, são o ingresso de seus primeiros vôos de 100, 200 ou 300 km. Status
de herói, ou um tornozelo fraturado em decorrência de um pouso mal sucedido. Você se torna super sintonizado
aos elementos, capaz de avaliar as condições do dia instantaneamente após ter decolado, subindo em
sua primeira termal. Você pode apontar vários gatilhos possíveis para a próxima termal a frente,
achar a deriva da térmica segundos após ter entrado em uma nova camada de ar, marcar as alturas
das camadas de inversão sem olhar o seu variômetro, e, parecendo quase que instintivamente, fazer
a coisa certa para voar mais tempo, mais rápido, mais alto e mais longe. Apenas alguns poucos
pilotos podem considerar este, como um estágio de pura exaltação. Aqueles que o alcançam, são
tratados com o respeito que provavelmente merecem. E ainda, com tanto para aprender, eles se
tornam a síntese perfeita de proficiência técnica e habilidade intuitiva. Tudo no qual, levam
a um vôo magnífico, através de uma simples pressão no acelerador ou nos batoques, a hora de uma
curva, a coragem de picar a vela, ou a previsão de um pêndulo brusco.
O mais alto estágio de vôo? Quase, mas não exatamente. Combine todas essas qualidades e insira-as
em uma prova contra o relógio, adicione uma corrida saudável de habilidade tática, preparação mental
e precisão matemática, e você está descrevendo o vôo de competição, o quinto estágio. Atentos aos perigos,
sorrateiros, cartas nas mangas, eles se observam na hora da decolagem com um olho nos competidores,
outro nas condições, todas as sensações alertas a qualquer mudança. Então, de repente, como se fosse
um sinal simultâneo que ecoa pela montanha, eles decolam em seqüências alucinantes, rapidamente
ultrapassando o tumulto do bando retardatário. De repente, reduzem ao se aproximarem do gol, cuidadosamente,
com ansiedade, fazem os cálculos do último planeio e ao mesmo tempo procurando pelas térmicas que
ainda possam sustente-los até o final da prova. Milhares de cálculos e então eles aceleram para
chegar com apenas alguns segundos a frente dos outros competidores, não perdendo um metro mais que
o necessário para cruzar a linha final.
Neste estágio, velocidade é a essência. Velocidade, a qual é o resultado de melhores decisões, melhor
técnica e absoluta confiança. Alguns poucos alcançam a perfeição neste estágio. Invariavelmente, eles
se tornam os campeões do mundo de nossa época, alguns chegando até mesmo ao sexto estágio. Apenas alguns
indivíduos se encaixam na descrição acima. Eles provavelmente não competem, não fazem grandes
distâncias ou buscam recordes de altitude. Ainda assim, eles voam excepcionalmente bem em qualquer
condição. Eles sobem, permanecem lá em cima, fazendo vôos incríveis. Virtualmente todas as vezes.
Este, para mim, é o maior estágio de vôo. Onde o piloto fica de fora, deixa seu ego de lado e apenas
voa pela pura paixão de estar lá. Apesar de tudo. Provavelmente em condições muito fracas, nos dias
mais improváveis, percebendo o lift onde não deveria existir, voando na única termal do dia. Suas
intuição no vôo, tão bem sintonizada por indagar a si mesmo por tantos anos a simples pergunta: Como
sair daqui e chegar lá preferencialmente sem caminhar? E então aplicam todo o seu conhecimento a fim
de completar com sucesso esta tarefa. O elemento essencial deste estágio é fácil de ser reconhecido: é
a paixão de permanecer no ar, não diferente da vontade de sobreviver.
Há, entretanto, um requisito final: se ninguém viu você subindo e fazendo isto, se ninguém percebeu
o grau de dificuldade de seu vôo, você ainda sentiria a satisfação em sua alma do prazer de realização
quando pousasse?
"Jaco Wolmarans "
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